Ansiedade não é fraqueza. É um sinal que ainda não aprendeu a ler-se. | Nuno Cortez
Psicologia

Ansiedade não é fraqueza.
É um sinal que ainda não aprendeu a ler-se.

8 min de leitura Nuno Cortez
Nuno Cortez
Psicólogo Clínico · Criador do Código Vital®
Floresta com neblina ao amanhecer, silêncio e presença

A ansiedade, como a neblina, não desaparece por ser combatida. Dissipa-se quando a luz muda.

Há uma cena que se repete nos consultórios com uma regularidade quase previsível. A pessoa entra, senta-se, e diz qualquer coisa como: "Sei que é ridículo, mas fico ansioso sem razão nenhuma." Ou: "Não consigo parar de pensar. Sei que não devia, mas não consigo." Ou, ainda, com uma espécie de vergonha mal disfarçada: "Já tentei de tudo. Não sei o que há de errado comigo."

O que há de errado não é o que pensam. O problema não é a ansiedade. É a forma como aprenderam a relacionar-se com ela.

O que é realmente a ansiedade?

A ansiedade é uma resposta do sistema nervoso. Não é uma falha de carácter, não é sinal de fraqueza e não é, na maioria dos casos, uma doença que precisa de ser eliminada. É um mecanismo de sobrevivência que a evolução aperfeiçoou durante milhões de anos.

Quando o cérebro percebe uma ameaça, a amígdala, a estrutura responsável pelo processamento emocional, activa o sistema de resposta ao stress. O cortisol e a adrenalina entram em circulação. O coração acelera. Os músculos tensionam. A respiração fica mais curta. O pensamento estreita-se para o que parece urgente.

Este sistema foi construído para lidar com ameaças concretas e imediatas: o predador, a queda, o perigo físico. O problema é que o cérebro moderno usa o mesmo sistema para ameaças que não têm forma física. A apresentação de trabalho. O conflito na relação. A sensação de não ser suficiente. O futuro que não consegue controlar.

"O sistema nervoso não distingue entre um leão a 20 metros e um email por responder. Para ele, ameaça é ameaça."

O paradoxo de combater a ansiedade

A maioria das pessoas tenta combater a ansiedade. Resistem a ela, distraem-se dela, criticam-se por a ter. E quanto mais a combatem, mais ela cresce. Não porque sejam fracas, mas porque estão a usar a estratégia errada.

A neurociência chama a este fenómeno amplificação por supressão. Quando tentamos suprimir um estado emocional, activamos exactamente as redes neurais que queríamos desligar. É como dizer a alguém para não pensar num elefante cor-de-rosa. A primeira coisa que a pessoa faz é pensar num elefante cor-de-rosa.

A ansiedade não desaparece por ser combatida. Transforma-se quando é compreendida. E compreender começa por perguntar: o que está este sinal a tentar comunicar?

O que a ansiedade está a tentar dizer?

Na minha prática clínica, aprendi a tratar a ansiedade como um mensageiro. Incómodo, por vezes desesperante, mas sempre com uma mensagem. A questão é aprender a decifrá-la.

Algumas das mensagens mais comuns que encontro:

  • Há uma necessidade não reconhecida. Descanso, segurança, conexão, reconhecimento. Algo que está a ser ignorado há demasiado tempo.
  • Há um valor a ser traído. A ansiedade antes de uma decisão pode ser o sistema interno a avisar que aquela escolha vai contra o que realmente importa.
  • Há um padrão antigo a ser activado. Muita ansiedade adulta tem raízes em experiências de infância que o sistema nervoso ainda não processou completamente.
  • Há demasiado para o sistema aguentar. O stress crónico acumula-se. A ansiedade pode ser simplesmente o indicador de que o nível de exigência ultrapassou a capacidade de recuperação.

O que a neurociência diz sobre a mudança?

A boa notícia é que o cérebro não é estático. A neuroplasticidade, a capacidade do sistema nervoso de criar novas ligações e reorganizar padrões existentes, é real e documentada. Não é magia, é biologia.

O que a investigação mostra com consistência é que a mudança acontece através da experiência repetida. Não através da compreensão intelectual, perceber que "não há razão para ter medo" raramente muda a experiência emocional, mas através de novas experiências que ensinam ao sistema nervoso que pode confiar.

Técnicas como a respiração controlada, o mindfulness, a exposição gradual e a terapia cognitivo-comportamental têm evidência sólida exactamente porque actuam directamente sobre o sistema nervoso, criando novas respostas a velhos estímulos.

Como começar a relacionar-se de forma diferente com a ansiedade

Não há um passo único. Mas há um primeiro movimento que muda tudo: parar de tratar a ansiedade como inimiga.

Isso não significa gostar dela. Significa estar disposto a ouvi-la antes de a tentar eliminar. Significa perguntar, genuinamente, com curiosidade, o que está por detrás do sinal. Significa reconhecer que o sistema nervoso está a fazer exactamente aquilo para que foi construído: proteger.

Quando a relação com a ansiedade muda, a ansiedade muda. Não desaparece, faz parte da experiência humana, mas deixa de dominar. Torna-se informação em vez de sentença.

Se a ansiedade está a interferir de forma significativa na sua vida diária, no trabalho, nas relações, no sono, no bem-estar geral, o acompanhamento psicológico é o caminho mais eficaz e mais respeitoso para percorrer. Não porque seja fraqueza pedir ajuda. Porque algumas mensagens precisam de um espaço seguro para serem ouvidas.

Perguntas frequentes

O que é a ansiedade?
A ansiedade é uma resposta adaptativa do sistema nervoso perante uma ameaça percebida. Não é uma doença em si, mas um sinal, o sistema interno a avisar que algo precisa de atenção. O problema não é a ansiedade, é a relação que estabelecemos com ela.
Quais os sintomas mais comuns da ansiedade?
Tensão muscular, coração acelerado, dificuldade em respirar fundo, pensamentos repetitivos sobre cenários negativos, dificuldade em adormecer, irritabilidade e a sensação persistente de que algo vai correr mal sem razão aparente.
Como lidar com a ansiedade no dia a dia?
Começa por mudar a relação com ela: em vez de combatê-la, aprende-se a ouvi-la. Técnicas de regulação do sistema nervoso como respiração controlada, mindfulness e terapia cognitivo-comportamental têm evidência sólida. Em casos mais persistentes, acompanhamento psicológico é o caminho mais eficaz.
Ansiedade tem cura?
A ansiedade faz parte da experiência humana, não desaparece por completo, nem deveria. O objectivo não é eliminá-la mas transformar a relação com ela. Com acompanhamento adequado, a maioria das pessoas aprende a reconhecer os seus sinais, reduzir a sua intensidade e impedir que interfira com a vida diária.
Quando devo procurar um psicólogo para a ansiedade?
Quando a ansiedade está a interferir de forma consistente com o trabalho, as relações, o sono ou o bem-estar geral. Não é necessário esperar que seja "suficientemente grave". O acompanhamento psicológico é tanto mais eficaz quanto mais cedo se inicia.
Próximo passo

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